A Revista Placar, em outubro de 1982, apresentou uma matéria especial que teve repercussão semelhante a que promete o novo escândalo da arbitragem, agora divulgada pela Revista Veja, ambas da Editora Abril.
O Uberaba Sport segundo denúncia da revista na época, venceu o Atlético (MG) com ajuda de empresários que podem ter manipulado o resultado, pagando propina à arbitragem ou a integrantes do clube da capital.
A base, era a mesma. A manipulação de jogos que estavam em loterias. Na época, não existia a INTERNET e as apostas eram apenas as convencionais, feitas em Casas Lotéricas.
Na ocasião, a Revista Placar denunciou uma armação de resultados para favorecer aqueles que jogavam na Loteria Esportiva, então a principal loteria do Brasil, que pagava prêmios milionários.
No final, muitos dos citados pela Revista Placar, acabaram processando a própria revista por acusações infundadas e foram indenizados judicialmente, já que Placar tomou por base depoimento de um radialista cearense, Flávio Moreira, sem que houvesse maiores provas.
Com a matéria publicada, a Loteria Esportiva ficou desmoralizada e hoje não representa nada do que representou nos ano 70. A Revista Placar, que era o principal veículo da comunicação esportiva do Brasil, com concorridas edições semanais, hoje tem apenas edições mensais, com repercussão pequena.
O Nosso Esporte traz na íntegra as matérias publicadas em 1982 pela Revista Placar.
Escândalo da Loteria Esportiva – PLACAR
POR SÉRGIO MARTINS - Equipe PLACAR
UMA CADEIA DE MUITOS ELOS
Como se um vendaval o tivesse despertado de um calmo sono tropical, o futebol brasileiro reagiu abruptamente às denúncias de PLACAR. Antes da edição chegar às bancas de todo o país, terça-feira passada, telefonemas estouravam na redação. 0 repórter Sérgio Augusto Carvalho, de Belo Horizonte, surpreendeu-se ao ouvir, do outro lado da linha, urna voz ameaçadora:
"Se o meu nome aparecer nessa reportagem vou te visitar no necrotério". O dono da voz, provavelmente, desistiu do seu objetivo, mesmo porque, nos dias que se seguiram, o único incidente a quebrar a rotina jornalística de Sérgio Augusto foi provocado pelo truculento técnico lustrich, do Cruzeiro, que o ofendeu com palavrões e gestos obscenos em plena Toca da Raposa, diante de jogadores, repórteres e dirigentes.
A grosseria de lustrich, censurada pelo presidente Felício Brandi, mereceu enérgico protesto da Associação de Cronistas Esportivos local.
Atos intempestivos como esse podem intimidar o jornalista, mas fazer uso de violência não recomenda ninguém. Autor de uma moção de repúdio a PLACAR, aprovada pelo Tribunal de Justiça Desportiva do Rio de Janeiro, do qual faz parte, o juíz Francisco Horta sustentou que a denúncia apenas serviu para denegrir a imagem do futebol. Entre imagem e realidade há diferenças às vezes fatais, e o próprio Horta é um exemplo: foi afastado da Vara de Execuções Criminais, que dirigia até outubro passado, "por manter fraternal amizade com o então presidiário Mariel Maryscotte de Matos", como lembra nesta semana a revista Veja.
Simular uma aparência de saúde, aliás, é típico de regimes autoritários, incapazes de dialogar mas coniventes com todo tipo de expediente. Assim como a prática da tortura floresceu à sombra da censura à imprensa, a manipulação dos testes da Loteria aproveitou-se da ausência de fiscalização dos organismos competentes. Hoje, expurgar o futebol e reabiIitá-lo aos olhos de miIhões de apostadores e torcedores é tarefa que deve mobilizar o país inteiro, ao contrário do que supõe o advogado Jomar Macedo, do Sindicato dos Atletas Cariocas. Cético, ele confessava a Lemyr Martins, de PLACAR, ao repórter Israel Gimpel, da Rádio Jovem Pan, e ao apresentador Ruy Viotti, nos bastidores do programa "Olho no Lance", gravado na TV Record sexta-feira última, em São Paulo: "Corrupção neste país existem muitas, mas o difícil é provar' '.
Diante das câmeras, Macedo empregou uma retórica lacrimogênea para defender seus clientes. Um deles, o meio-campo Paúra, teria perdido uma oportunidade de emprego por causa de seu envolvimento na denúncia. "Um honrado pai de família", bradava o advogado.
Um dia antes, na cidade capixaba de Colatina, o ponta-direita Carlinhos, ex-companheiro de Paúra no Rio Branco de Vitória, foi entrevistado pela Rádio Difusora local. E confirmou: "Quem estava envolvido mesmo era o Paúra e uma patota que veio jogar no Rio Branco. Eles estavam por dentro desse negócio".
Provar é tarefa que cabe à polícia. Assim, rastreando a trilha de PLACAR, o ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel - depois de receber um pedido formal nesse sentido do presidente da CBF, Giulite Coutinho, interessado desde o primeiro momento em moralizar o futebol brasileiro -, determinou na sexta-feira que a Polícia Federal abrisse inquérito para apurar as denúncias. As evidênclas oferecidas na reportagem foram consideradas graves o suficiente para merecerem investigação oficial. Mais que isso: a queda de 11% no movimento de apostas da Loteria Esportiva na semana passada é um indicador de que a opinião pública exige o esclarecimento dos fatos.
No fim da semana, o general da reserva Ítalo Conti, deputado federal pelo PDS paranaense, anunciava em Curitiba que iria pedir a instauração de Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar o escândalo da Loteria.
"Quero ver as provas", protestava nervosamente o goleiro Toinho, do São Paulo, um dos 125 nomes arrolados na reportagem. "Vou cobrar 10 milhões de PLACAR", insinuava o lateral-direito Paulo Maurício, do Fast Clube de Manaus, o mesmo que no dia 13 de agosto passado foi corrido do Fortaleza, seu time na época, por tentar subornar os próprios companheiros. "Ele rondou o meu apartamento e, desde então, eu ando armado de revólver", argumentou o zagueiro Nelson, que denunciou a trama e passou a temer pela segurança de sua família.
O ex-zagueiro Oberdã Vilain, que também promete investir contra PLACAR, tem histórias nebulosas em seu passado. Um técnico do interior paulista confirmou, na semana passada, que Oberdã integra há anos o grupo de Luís Afonso Camargo, Dreyer e Orlando Lelé, em apostas de Loteria. Em Santos, comenta-se até hoje que provocou a brusca rescisão de contrato solicitada pelo goleiro Cejas, em outubro de 1975. Este teria decidido retornar à Argentina depois de ter recebido uma proposta de suborno por parte de Oberdã, à época em que ambos defendiam o Santos de Pelé - o episódio, aliás, foi citado pelo jornal O Repórter, do Rio, em sua edição de 16/08/1981.
Provas materiais são dificílimas na apuração do suborno e, no seu estrito formalismo jurídico, o advogado Jomar Macedo tem alguma razão. Uma ordem de pagamento enviada através do União de Bancos Brasileiros, no valor de Cr$ 500.000,00, em setembro de 1979, a Aírton Vieira de Morais, o Sansão, por conta da intermediação do suborno do juíz Júlio César Cosenza, não serviu para tipificar o crime.
Ao empreender suas investigações, a Polícia Federal irá esbarrar em obstáculos sérios, a começar da míope visão de alguns membros da comunidade do futebol, como o goleiro Solito, do Corínthians, que se escorou numa suposta recomendação da diretoria do sindicato paulista para não relembrar - com nomes - a tentativa de suborno de que foi vítima quando defendia o Náutico de Recife, em setembro de 1980. "Isso é comum no Nordeste", admitiu Solito ao repórter Mário Serapicos. É de se supor que o sindicato, por representar a classe e defender seus interesses legítimos, reclame a apuração completa dos fatos, em lugar de defender a lei do silêncio.
Foi o que pretendeu fazer o sindicato carioca, ao propor boicote aos repórteres de PLACAR, numa atitude em tudo semelhante à tomada pelos jogadores da Seleção Brasileira, durante a excursão à Europa em 1973, traduzida no infeliz "Manifesto de Glasgow". Nos dois episódios, a tentativa corporativa de garantir imunidade a todos - e o caso Tadeu Macrini é nesse sentido exemplar.
No sábado passado, refugiado numa praia do litoral paulista, Macrini manifestava a intenção, declarada através de sua mãe, dona Leonor, em São Paulo, de processar PLACAR através dos advogados do sindicato. Tendo saído às pressas de Franca - providenciou mudança e entregou as chaves do apartamento onde morava num prazo recorde de oito horas -, deixou em seu rastro um depoimento comprometedor ao delegado Naur Apparecido Cerissi, que instaurou o primeiro inquérito policial a partir da denúncia de PLACAR.
Na verdade, o presidente da Francana, José Corrêa Neves, resolveu ir em frente estimulado pela reportagem - e esse "ir em frente" compromete radicalmente a lisura dos testes da Loteria Esportiva. No dia 20 de outubro passado, o centroavante Tadeu Macrini, da Francana, recebeu Cr$ 300.000,00 do diretor Marcelo Martínes, do São Paulo. A entrega foi feita minutos antes de se iniciar o jogo entre as duas equipes, inscrito no teste n. 619.
Se o dinheiro foi oferecido como recompensa por uma vitória no domingo anterior sobre o Corínthians, ou como suborno, é o que menos interessa. 0 ponto essencial é a distorção por meio artificial de um outro tipo de jogo - o teste lotérico ao qual concorrem semanalmente 11 milhões de cartões, ao prêmio mínimo de Cr$ 30,00.
No Rio de Janeiro, 0 ex-árbitro Neri José Proença, hoje comerciante em Teresópolis, confessou ao repórter Marcelo Rezende seu envolvimento com a ramificação carioca da máfia, cooptado pelo também ex-juíz Geraldino César. Implicado em tentativa de suborno a jogadores do Madureira, em outubro de 1975, Proença foi o único a receber punição - eliminação do quadro de apitadores da Federação. Semana passada, ele relembrou um incidente ocorrido logo após a denúncia de PLACAR: "Encontrei com o José Aldo Pereira (outro dos 125) na avenida Rio Branco (centro do Rio) e ele fez gracinha comigo: "Cuidado com a Loteria"'. Eu disse: "Olha, ladrão é você!" Ele saiu de mansinho. Manda apurar: o Zé Aldo chegou na Federação de calça rasgada e hoje tem até um grande sítio no Estado do Rio. Ele está metido nisso".
Neri Proença foi defendido na Justiça pelo advogado Faissal Metne, o mesmo contratado pelo zagueiro Biluca (outro dos 125), acusado de entregar o Operário de Campo Grande num clássico contra o Comercial, em 1981. Metne, que reside num luxuoso duplex da rua Toneleros, em Copacabana, deslocou-se até Mato Grosso para tratar da questão, lá constatando que o jogador se encontrava sob regime de prisão domiciliar. Ouviu, além disso, novas denúncias na Polícia Federal feitas pelo presidente do Operário, Irineu Farina.
0 advogado rememorou o episódio ao repórter Marcelo Rezende: "O Irineu me disse: "0 Biluca entregou um jogo aqui em Campo Grande, 0perário x Brasília, que foi a maior zebra da Loteria, 1 x 0 para 0 Brasília (teste 382 de 26/03/1978, apenas quatro ganhadores)". O caso foi arquivado, por falta de provas".
Uma conexão ligando tantos personagens e tecendo fios invisíveis em torno dos milhões de cruzeiros que a população brasileira injeta na Loteria Esportiva, merece rigorosa investigação. Ainda que uma maioria venha preferir a alternativa cômoda do "nada vi, nada sei", a busca da verdade justifica o esforço. Em sua crônica de domingo passado no Jornal do Brasil, João Saldanha advertia: "O que vocês queriam? Que a turma do futebol fosse entregue pelo dom Evaristo Arns? Ou por algum anjinho barroco? Dom Evaristo e o anjinho não se metem em sujeiras".
Em seguida, o mais famoso comentarista esportivo do país resumia todo o espírito da denúncia de PLACAR: "Mas também estou certo e confiante numa coisa que se chama esporte. O esporte faz justiça sempre. Pode até levar 60 anos como no caso do Jim Thorpe, o índio americano de quem tomaram a medalha porque recebeu 20 dólares num show. Agora foi devolvida. (...) Calma senhores advogados do sindicato ou outros. Ajudem a apuração do caso. Wattergate começou com uma denúncia. Nixon jamais assinou a formalização de culpa".
CONFIRMADO: PAÚRA ERA DO ESQUEMA
Quinta-feira, 21 de outubro. A Rádio Difusora de Colatina, Espírito Santo, está na pista do escândalo da Loteria e seu repórter Alcenir Coutinho entrevista o ponta-direita Carlinhos, do Colatina, ex-jogador do Rio Branco e que no ano passado defendeu o Santa Cruz de Recife. No ar, a denúncia explode de maneira surpreendente, inesperada:
Repórter - Quando você jogava no Rio Branco esses resultados arranjados chegavam a acontecer?
Carlinhos - Sim. E quem estava envolvido era o Paúra e uma patota de fora que veio jogar no Rio Branco.
Depois de ouvir a entrevista concedida por Carlinhos, o presidente do Rio Bronco, Edson Bourguignon - que é, inclusive, primo do jogador -, confessou a PLACAR que seu clube realmente sofrera muito com a manipulação de resultados, para cuja existência fora alertado em 1980 pelo meio-campista Mauro, ex-América do Rio:
- Mauro não estava levando sua carreira a sério vinha relaxando nos treinos por isso resolvi rescindir seu contrato. Então, quando saiu, ele me avisou: há gente se vendendo no time e era por isso que o Rio Branco vinha perdendo tantos jogos impossíveis. Fiquei alerta. Então, depois de sermos derrotados pelo Ordem e Progresso por 4 X 3, em Bom Jesus (jogo incluído no teste 508, de 17/8/1980) e de empatarmos com o Guarapari por 1 X 1 (teste 519, dia 1I11/1980) decidi rescindir o contrato de nosso goleiro: o rapaz havia falhado em todos os gols. Chamei-o a meu escritório e disse que só não o colocava na cadeia porque não tinha provas concretas. Ele saiu rindo!
Em sua entrevista, Bourguignon não quis citar expressamente o nome do goleiro em questão. Mera formalidade: nos dois jogos citados, era Jair.
Jair não está na Iista de nomes divulgados na semana passada por PLACAR. Paúra sim.
O GOLEIRO QUE GOSTAVA DE SUBORNAR
"Nunca fui acusado de nada, todos sempre me respeitaram", indignou-se terça-feira passada o lateral-direito Paulo Maurício, do Fast Clube, de Manaus. É bem diferente, contudo, sua reputação em outros Estados, a começar pelo Ceará. Nélson, zagueiro do Fortaleza, por exemplo, testemunhou um episódio dramático em agosto passado.
Seu relato ao repórter Luciano Luque: - No dia 13 de agosto, Paulo Maurício ofereceu seis milhões de cruzeiros a mm, ao lateral-esquerdo Clésio, ao central Lineu e ao centroavante Miltão, para que entregássemos uma partida que faríamos no dia 15 contra o Tiradentes (jogo 6 do teste 611). Não somente respondi que não topava o negócio, corno contei tudo para o presidente Sílvio Carlos e para o técnico Moésio Gomes.
Sílvio confirma a história:
- Mandei chamar o jogador, rescindi seu contrato e o mandei embora - lembra.
Mas essa não é a única acusação que pesa contra o jogador. Para defender-se das denúncias de PLACAR o médico e ex-presidente do Vitória, Rui Ribeiro Rosal, conta que, quando já estava afastado de seu clube, soube que, às vésperas de um jogo contra o Serrano, de Petrópolis (RJ) pela Taça de Ouro do ano passado, quatro jogadores do Vitória estavam subornados. 0 rubro-negro baiano perdeu a partida levando dois gols "estranhos", em que toda a defesa falhou - e, por coincidência, o lateral-direito, naquela partida, era exatamente Paulo Maurício.
0 ex-zagueiro Sapatão, outro dos 125, hoje técnico das equipes inferiores do Bahia, preferiu rir das denúncias, sem considerar que existe, no Departamento de Polícia Federal do Ceará, uma representação do Fortaleza Esporte Clube, assinada pelo presidente Fares Lopes (irmão do cantor Fagner), datada de 23/7/1981, acusando-o de ter tentado subornar o zagueiro Alexandre para que este provocasse a derrota de seu clube num jogo contra o Guarani de Sobra!, incluído na Loteria Esportiva.
Sapatão, logicamente, tem outra versão do episódio. Ele admite que esteve na concentração do Fortaleza às vésperas do jogo contra o Guarani, mas apenas para "cobrar uma dívida de Cr$ 200 000,00 que o clube tinha comigo". Sua história, no entanto, não se sustenta. 0 jogador Alexandre confirma que houve a tentativa de suborno e, além disso, se ele fosse inocente, como alega, por que leria deixado Fortaleza e voltado para Salvador às pressas, com a polícia cearense em seu encalço?
MACRINI FOI À POLÍCIA. E SAIU DE FRANCA
Três dias após a denúncia de PLACAR, o centroavante Tadeu Macrini, um dos envolvidos, voltou às manchetes. Na cidade de Franca, a 400 km de São Paulo, o presidente da Associação Atlética Francana, José Corrêa Neves, fez urna representação à Delegacia de Polícia local, solicitando abertura de inquérito para apurar um caso de suborno envolvendo o jogo disputado entre a sua equipe e o São Paulo F.C. no último dia 10.
A denúncia de Corrêa Neves cita, como subornador, o diretor de futebo do São Paulo, Marcelo Martínes, e, como subomado exatamente o atacante Tadeu Macrini. A Francana, que luta para fugir ao rebaixamento, perdeu a partida por 1 X 0.
Assim que soube da acusação, o diretor tricolor mostrou-se surpreso, negou qualquer envolvimento e pediu a exibição de provas. Mal sabia que, naquele mesmo momento, Tadeu Macrini, em depoimento assinado perante o delegado de polícia Naur Apparecido Cerissi, confirmava haver recebido, minutos antes da partida, das mãos de Marcelo Martínes, um envelope com 300 mil cruzeiros - notas de 5 mil -, "para serem distribuídos aos jogadores da Francana como prêmio pela vitória conseguida, no domingo anterior, sobre o Corínthians (1 X 0)". Macrini então comunicou o fato ao treinador Alfredinho. Em seguida, diz o depoimento, ambos relataram tudo ao zagueiro Zé Mauro, capitão da equipe. Ouvido por PLACAR, o zagueiro explicou no sábado:
- Pouco antes do aquecimento, os dois me chamaram num canto e disseram: "Olha, neste envelope amarelo tem uma grana oferecida pelo São Paulo pela nossa vitória sobre o Corínthians". Eu estranhei um pouco, porque nesta vida de boleiro raras vezes vi um cartola pagar prêmio atrasado, principalmente esses prêmios "de incentivos". Mas enfim, vi eles contarem a grana. Tinha 300 mil, e decidimos avisar o pessoal que o dinheiro seria distribuído após o jogo por todos - jogadores, técnico, roupeiro, massagista e preparador físico, num total de 30 pessoas.
O presidente Corrêa Neves, um jornalista veterano e cartola principiante (é seu primeiro mandato, assumido - como vice - após a renúncia do presidente anterior), que soube de tudo apenas quando viu o dinheiro sendo distribuído, após a derrota, não ficou só na estranheza:
- Pelo menos psicologicamente os nossos jogadores entraram em campo condicionados a não render tudo o que podiam. Como dividir mais virilmente uma bola com um adversário que acaba de nos dar um presente? Além disso, comecei a ligar o fato a algumas atitudes do Macrini, que veio para cá gordo, fora de forma, e, em um mês e meio, não chegou a jogar um total de 90 minutos. Mas justamente nesse jogo contra o São Paulo ele fez questão de jogar, fez questão de ser escalado ao menos para o banco de reservas. Ora, por que o diretor do São Paulo não procurou nenhum dirigente da Francana para falar sobre esse "bicho", ou o técnico Alfredinho, ou o capitão do time? Por que escolheu exatamente o Tadeu Macrini?
0 presidente Neves irritado, explica porque não tomou providências imediatas:
- Confesso que fui muito ingênuo. Como haveria uma reunião do Conselho Arbitral da Federação, esperei que lá o Dallora (José Douglas Dallora, presidente do São Paulo) me dissesse algo a respeito. Mas não houve nada, ele nem tocou no assunto. Então quando vi a reportagem de PLACAR sobre a Loteria, não tive mais dúvidas, principalmente pelo fato do intermediário ter sido o Tadeu Macrini. Achei então que tinha a obrigação de denunciar essa imoralidade. Chamei o Macrini - que já havia sido afastado do time - e ele, concordou em prestar um depoimento na polícia. Está lá, para quem quiser ver. E nem se diga que o jogador foi pressionado, porque ele não tinha mais nada a perder aqui em Franca.
De Fato, se alguém andar algumas horas, nas manhãs de fins de semana, pelos bares e cafés da praça Barão de Franca, centro dos mexericos da cidade, não ouvirá ninguém elogiar o centroavante:
- Entrou no finzinho do jogo contra o São Paulo e perdeu um gol cara a cara com o Waldir Perez.
- O passatempo dele era comprar ouro, jóias e dólar no câmbio negro.
Entre os jogadores, embora prefiram o anonimato, alguns acham até que o "pacote" não era só de 300 mil; e sim de um milhão. E o resto? "Ah", dizem "o Tadeu deve ter trocado por dólares..."
E o ponta Zé Guimarães, uma das estrelas do time, fez uma revelação no mínimo pitoresca:
- O Macrini disse pra gente que o homem perguntou se ele queria pegar o pacote antes ou depois da partida, ao que ele teria respondido: "Antes, é claro. Depois, a gente pode ganhar o jogo de hoje e vocês mudam de idéia".
Em São Paulo, os dirigentes do tricolor contra-atacaram. Marcelo Martínes acusou o presidente Neves:
- É um homem desesperado, que inventou essa infâmia para tentar justificar o rebaixamento do seu time. É um desequilibrado mental.
Mas não negou o encontro com Tadeu Macrini:
- Eu não o conhecia, fui apresentado a ele na saída do vestiário.
Na noite de sexta-feira, porém, Martínes afirmou ao programa "Na Marcha do Esporte", da Rádio Bandeirantes, de São Paulo, que já conhecia Macrini do próprio clube, onde trabalha há 14 anos. "Ele foi nosso juvenil", informou.
A DENÚNCIA QUE ABALOU O PAÍS
Nos jornais, rádios e televisões brasileiras, o impacto provocado pela reportagem de PLACAR multiplicou-se em elogios, críticas e - finalmente - em novas denúncias
Em centímetros quadrados de páginas de jornais, em minutos e horas dos noticiários de rádio, de televisão, poucos casos tiveram, na história do jornalismo brasileiro, uma repercussão tão grande. Impacto compreensível, por se tratar de uma denúncia que envolve futebol e jogo, provavelmente as duas maiores paixões nacionais.
A rede de corrupção envolvendo a Loteria Esportiva era um assunto conhecido, detectado aqui e ali por ocasião de zebras absurdas, insinuado em tantas conversas sigilosas, mas jamais desvendado. Assim, a denúncia de PLACAR quebrava um tabu pois, finalmente, havia nomes, rostos endereços. As reações não poderiam ser outras: aplausos, críticas, desmentidos, confirmações, indignação, medo, surpresa - sinceras e falsas.
As análises não se limitaram - e quanto a isso não há dúvida de que o debate deve ser mesmo estimulado - à denúncia em si, mas ao próprio papel do jornalismo junto à sociedade.
A título de preservar a imagem do futebol brasileiro (e, por extensão, do país) no exterior, não faltou até quem dissesse que a reportagem jamais deveria ter sido publicada, pois não traria "provas irrefutáveis". Com lucidez, alguns dos mais importantes jornalistas brasileiros lembraram que existe uma diferença fundamental entre a investigação jornalística e a investigação policial.
A questão das provas foi, durante toda a semana, a que mais excitou boa parte da imprensa. Tanto que, antes mesmo de PLACAR chegar às bancas, já se levantavam dúvidas. como as de Paulo Santana em sua coluna no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, terça-feira retrasada, dia 19, escrita portanto na véspera: "Depois da denúncia de suborno feita pelos jogadores do Guarani, agora vem outra a molestar ainda mais quem, como eu e tanta gente, principalmente os dirigentes, se preocupa com o presente e o futuro do futebol. PLACAR está aí, atirando um mar de lama no ventilador, em cima de pessoas que estariam comprometidas com a mudança de escores da Loteria Esportiva.
São tantos os nomes, sem descrer na reportagem, que eu queria apenas lembrar que muitos deles podem. estar absolutamente inocentes".
Para Achilles Chirol, colunista do Jornal dos Sports, do Rio de Janeiro, em artigo nessa mesma terça-feira, a questão das provas "...é mais funda. Envolve a credibilidade de muitas áreas importantes de atuação na vida brasileira, inclusive a imprensa. (...) Assim como horroriza a inclusão de Mazarópi num caso tão escabroso, ninguém deve desde logo concluir que a imprensa cometeu um ato de leviandade ao denunciar a trama de suborno. Os fatos estão em suspenso até que a verdade se esclareça".
Outros eram mais incisivos, como por exemplo Sérgio Noronha, da Última Hora carioca, ainda no dia 19: "Suspeitas, histórias e nomes ligados a suborno são coisas que eu ouço antes mesmo de me tornar jornalista, e ao longo de muitos anos fui sentindo como era difícil provar as acusações ou comprovar as histórias. Mas, mesmo sem ler a reportagem, ninguém pode negar a corrupção no futebol. Ela já existia nos tempos em que apenas a paixão entrava em campo, e deve ter-se robustecido quando anexaram a Loteria ao futebol".
Em sua crônica, Noronha prosseguia analisando a vinculação do esporte ao jogo, lembrando até quando ele e mais dois jornalistas esportivos - José Ignáclo Werneck e João Saldanha - foram consultados por um alto dirigente da Caixa Econômica Federal sobre como evitar as falcatruas. "Evitem jogos de times pequenos ou do interior para evitar que gente pobre e times humildes fiquem à mercê dos gangsters", foi o principal conselho dado por eles.
João Saldanha, na sexta, dia 22, escreveu no Jornal do Brasil exatamente a esse respeito: "... Jamais aceitei a Loteria Esportiva como útil ao futebol ou ao esporte...". E prosseguia: "Não tenho a menor dúvida sobre a matéria de PLACAR. Um ou outro envolvido poderá estar inocente. Mas os fatos anteriormente ocorridos e de pleno conhecimento dos organizadores da Loteria bastariam para ser extinta essa prática que corrompe o futebol".
Rádios, jornais e TVs de todo o país atiraram-se ao assunto com nuances diversas de enfoque. A muitos pareceu mais prudente duvidar da denúncia; outros - e entre estes tiveram especial participação as rádio-emissoras - sentiram na denúncia de PLACAR a ponta de um iceberg, e aderiram a uma prática altamente saudável numa sociedade democrática: a investigação jornalística. Aqui e ali, começaram a surgir depoimentos, novos fatos, novas denúncias.
A Folha de S. Paulo lembrou mais, em editorial no dia 20/10: "...De que maneira um repórter, em 12 meses de investigação, chegou a resultados que as autoridades esportivas, a Caixa Econômica Federal e a Polícia Federal com todos os seus recursos, foram incapazes de alcançar no mesmo sentido? E uma pergunta que diz muito sobre a complacência do Estado para com a corrupção nele enquistada ou abrigada à sua sombra, como neste caso".
No Sul, especialmente no Paraná, a imprensa dedicou páginas e manchetes ao escândalo durante toda a semana. Sob o título "E Agora? Jogadores Confirmam a Corrupção", 0 Diário do Paraná publicou, em sua edição de quinta, dia 21, diversas histórias de suborno relatadas por profissionais locais - que, entretanto, pediam sigilo. No mesmo dia, o presidente do Coritiba, Evangelino da Costa Neves, era manchete do jornal Tribuna do Paraná: "Evangelino Abre o Jogo: Tem Chuncho Sim". Chuncho, na gíria sulista, significa suborno, mutreta, corrupção. E o dirigente foi tão claro quanto corajoso:
"PLACAR está de parabéns, porque teve a coragem de denunciar essa sujeira. Há muito tempo eu esperava a atitude de um jornalista nesse sentido, e o rapaz de PLACAR teve coragem". Depois, Evangelino citava até dois jogos em que tem certeza de que sua própria equipe foi vítima de chuncho: Coritiba 1 x Operário 2, e Coritiba 0 x Cascavel 1, este no dia 2 de outubro passado. "Já na sexta-feira anterior ao segundo jogo, fui informado de que havia bolões sendo feitos com a coluna do Cascavel sendo cravada seca, quando nós é que éramos favoritos."
Enquanto o rastilho de pólvora das denúncias corria o país, a Confederação Brasileira de Futebol oficiava ao ministro da Justiça, Ibrahim Abi-Ackel, pedindo investigações, e a Polícia Federal - que a ele se subordina - iniciava diligências preparatórias para a abertura de inquérito. Nas bancas do Brasil inteiro, a edição de PLACAR esgotava-se rapidamente - e, nas casas Lotéricas, os apostadores hesitavam.
Entrevistados peIa Folha de S. Paulo, edição de sexta, dia 22, alguns proprietários mostravam-se irados com a queda da arrecadação e não raros criticavam PLACAR, embora de maneira incoerente, corno João Ferreira Júnior, dono da Lotérica Carajá da Sorte, em São Paulo:
"...e ainda vem uma besta dessas fazer denúncia sobre o que não Ihe interessa, só para aparecer. (...) Eu sempre desconfiei, aliás, que houvesse alguma coisa, e o apostador talvez volte depois que toda a marmelada for apurada". Ele se engana, evidentemente - esta é uma denúncia que interessa a milhões de torcedores e apostadores brasileiros. Na Metrópole Lotérica, o subgerente era claro: "...Agora, que tem mutreta, eu acho que tem..."
No final da tarde dessa sexta-feira, a Rádio Bandeirantes e em seguida a Jovem Pan, ambas de São Paulo, explodiam no ar uma bomba: o presidente da Francana acusava o austero São Paulo Futebol Clube de ter subornado com Cr$ 300 mil seu atleta Tadeu Macrini, um dos 125 citados por PLACAR No sábado, foi a vez da Rádio Globo de São Paulo levar aos ouvintes trechos das fitas gravadas com o depoimento de Flávio Moreira a PLACAR. Durante toda a semana, as televisões abriram espaços nos programas esportivos e nos noticiários, algumas investigando, outras preferindo dramatizar a situação dos envolvidos.
A magnitude das repercussões reforça a crença de PLACAR de que sua denúncia será uma importante contribuição ao futebol e ao jornalismo brasileiros. Como disse o telex enviado pela Editoria de Esportes do Jornal de Brasília: ''Prestamos nosso apoio, colaboração e solidariedade aos colegas de PLACAR no momento em que, temos certeza, serão muitas as pressões para tentar ocultar a verdade sobre o escândalo da máfia da Loteria. PLACAR, há mais de uma década, presta ao esporte e ao futebol brasileiros seus serviços, com informações jornalísticas da melhor qualidade. A toda sua equipe, nossos cumprimentos".
Nos últimos sete anos, a imprensa brasileira vem divulgando com freqüência crescente a existência da chamada 'Máfia da Loteria". PLACAR. a partir de dois escândalos ocorridos no final do ano passado (o caso Flávio Moreira, atualmente sendo investigado pela Polícia Federal, no Rio de Janeiro, e o caso Negreiros, em Santos), passou a investigar a presença dessa nebulosa instituição, buscando trazer a público os nomes de seus chefões, que permaneceram anônimos por todos esses anos, protegidos pela lendária lei mafiosa do silêncio.
Hoje, depois de ouvidos jornalistas, técnicos de futebol e dirigentes de clubes em vários Estados do Brasil e contar também com a colaboração profissional do radialista Flávio Moreira, PLACAR está pronto para denunciar esses cidadãos acima de qualquer suspeita - que criaram e sustentam uma invejável rede de corrupção que chega a estender seus fios para além das fronteiras do país, para provocar resultados surpreendentes em testes da Loteria Esportiva, burlando a boa fé dos apostadores - e a impecável seriedade da Caixa Econômica Federal.
Pois, como diz o arrependido Flávio Moreira, que viu sua carreira profissional desmoronar a partir da denúncia do ex-presidente do Botafogo Charles Borer, em outubro de 1981, "a Loteria Esportiva é séria até a bola rolar". Com isso, ele quer dizer que a Caixa procura dar o máximo de segurança aos apostadores, mas que quando as partidas são iniciadas nos fins de semana ela não pode evitar que árbitros, técnicos, dirigentes e jogadores envolvam-se com a complexa engrenagem de suborno montada pelos "zebrões".
Essa engrenagem, azeitada gordas quantias de dinheiro, começa a funcionar no exato momento da escolha dos 13 jogos que irão compor os testes. Foi assim durante os quase sete anos em que Flávio Moreira trabalhou na agência de notícias Sport Press, sediada no Rio - e encarregada de propô-los semanalmente à Caixa Econômica. Tudo leva a crer que o esquema continua funcionando ainda hoje com a mesma eficiência.
Como chefe do setor de loteria da Sport Press, Moreira organizava os testes escolhendo alguns jogos que interessavam aos grupos para os quais trabalhava, mandando-os para aprovação em Brasília. Esses jogos determinados envolviam clubes nos quais os vários grupos que formam a "Máfia da Loteria" tinham facilidade de acesso. "Meu primeiro contato com eles foi justamente para isso", confessa Flávio Moreira. "Por volta de 1975 fui procurado na Sport Press por pessoas de São Paulo para colocar jogos pré-escolhidos por elas nos testes que eu organizava".
Moreira chegara ao Rio logo após a Copa do Mundo de 1974 e alguns meses depois recebia um telefonema de Alberto Damasceno, radialista cearense com quem tinha amizade. "Flávio, uma pessoa de São Paulo quer muito falar contigo", disse Damasceno, atualmente supervisor e arrendatário do América de Fortaleza. Dias depois, Moreira mantinha seu primeiro encontro com João Nunes da Costa Filho, na época gerente do Banco Econômico, agência Pinheiros, em São Paulo, que se dizia representante de um grupo que jogava pesado na Loteria Esportiva. Com o tempo, Moreira descobriu que Nunes era o próprio chefe do grupo e não apenas um mero representante. E, aos poucos, a participação de Moreira deixou de ficar restrita à escolha de jogos nos testes que preparava. Passou a ser, na verdade, o principal contato do grupo na fabricação de resultados inesperados nos campos de futebol do país. "Era um bola de neve", compara o radialista. "A cada dia eu ficava mais envolvido e consciente de que não dava mais para sair".
"A Máfia da Loteria", como toda engrenagem mecânica e desumana, é inexorável em seu movimento em busca de dinheiro. Conta-se nesses meios, como piada, a história de Hélio Show, goleiro do ABC de Natal e hoje no Ferroviário do Ceará. Certa vez foi procurado para deixar o adversário ganhar o jogo, mas ele andara falhando na partida anterior e ficou com medo de tomar frangos novamente. Negar o pedido não podia, porque estava já por demais comprometido. Então, em desespero de causa, quebrou um taco de sinuca na cabeça de um companheiro seu, Noé Soares, dentro da concentração. Foi automaticamente afastado do time. E o ABC perdeu o jogo.
O grupo de João Nunes da Costa Filho era formado por Flávio Moreira, Alberto Damasceno, um homem chamado Garcia (o contador do grupo) e um outro, moreno e magro, conhecido por Triunfo, dono de uma loja lotérica no bairro paulistano de Pinheiros. Moreira e Damasceno encarregavam-se de fabricar resultados no Norte e Nordeste. Garcia, que dispunha de ligações no Juventus e na Ferroviária de Araraquara, fazia os jogos de São Paulo.
Mais tarde, o grupo passou a contar com a colaboração de Juca Paz, ex-dirigente do São Bento de Sorocaba e um dos assessores de Alfredo Metidieri, presidente da Federação Paulista de 1977 a 1979. Com poderes de diretor, sem sê-lo, Paz montou um amplo esquema dentro da Federação para a venda de árbitros e jogos. Hoje, é um homem rico. Esse grupo, no dia 1o. de agosto de 1976, teste 297, foi o responsável pela derrota do Corinthians para o Noroeste (0x2). "O acerto foi feito pelo Garcia com o árbitro José Ubaldo Biagioni", afirma Flávio Moreira. Ele lembra-se também de um outro teste trabalhado por Garcia - o 351, de 20 e 21/8/77. O jogo comprado foi o do São Cristóvão, que perdeu para o Madureira, em Figueira de Melo.
O jogador contatado foi o lateral-direito Júlio, que atuou depois em vários clubes, inclusive o Bangu. "Lembro bem", diz Moreira. "O Garcia pagou Cr$ 50 mil depois do jogo". E, enquanto os dois zebravam no Rio, Damasceno faria a vitória do América-RN sobre o ABC. "Ele afirmou que o goleiro Hélio Show e o zagueiro Pradera, um que jogou na Portuguesa de Desportos, estavam acertados", garante Flávio Moreira.
Mas o grupo de João Nunes da Costa Filho não era o único em atividade no país. No Paraná, Rio de Janeiro, Bahia, Pernambuco e Pará, quadrilhas semelhantes começam a movimentar suas engrenagens com velocidade crescente. Muitos anos antes, no início da década de 70, surgiam os primeiros indícios de que havia algo mais num cartão de Loteria do que a sorte ou o conhecimento de futebol para se chegar aos 13 pontos.
No dia 26 de setembro de 1971, por exemplo, Ézio Ferreira, um respeitado construtor de Manaus e, na época, presidente do Fast Clube, provocou a maior zebra do teste 60 ao retirar seu time de campo quando foi marcado um pênalti a favor do Goiás, que perdia o jogo por 1 x 0. A Caixa Econômica, em represália, proibiu a inclusão do Fast nos testes por quase quatro anos. Ézio, que teria feito os 13 pontos com a vitória do seu time, apenas trocou de clube e foi presidir o Rio Negro.
Mais ou menos na mesma época, no Paraná, Luís Afonso Camargo, várias vezes diretor do Coritiba, chegou a alugar um táxi aéreo para ir tentar subornar o goleiro do Juventus, de Rio do Sul, em Santa Catarina. O jogo, porém, já havia sido iniciado quando ele chegou ao estádio.
Restou-lhe apenas ficar atrás do gol juventino gritando sem sucesso.
Aqueles eram tempos de muitos riscos e improvisações freqüentes. Mais tarde, tudo isso terminou, dando lugar a uma organização profissional quase perfeita. Afinal, o investimento tornou-se muito grande para ser colocado em perigo. Luís Afonso Camargo há muitos anos não precisa mais desabalar-se em pequenos aviões para zebrar jogos, já que faz parte de um dos mais bem-sucedidos grupos em atividade no país - o do Paraná. As informações colhi das por PLACAR em várias cidades indicam que foi Aziz Domingues quem o organizou com método, discrição e ousadia.
Domingues esteve sempre muito ligado ao futebol do Paraná como diretor do Colarado. Atualmente, ele é diretor e o homem forte da Federação Paranaense de Futebol. Em 1969, porém, era um homem pobre, que vendia flâmulas aos torcedores que foram a Assunção ver a Seleção Brasileira enfrentar o Paraguai pelas eliminatórias da Copa do Mundo do México. Hoje é um homem rico, fazendeiro, proprietário de diversos loteamentos e imóveis. Recentemente, passou a jogar na Loteria Esportiva sozinho, devido aos crescentes rumores de que era um dos chefões da "máfia" e também porque, milionário, podia movimentar a complexa engrenagem sem ajuda do grupo.
Até pouco tempo, no entanto, Domingues pertencia ao grupo formado por Luís Afonso Camargo, o ex-jogador argentino e ex-técnico do Coritiba Dreyer, o comerciante Leon Barg e o técnico do Colorado Avelino de Abreu, o Mosquito. Juntos, fabricaram as maiores zebras do Sul do país, que muitas vezes foram vendidas a outros grupos, através de Leon Barg, o Leãozinho, proprietário da Casa Sartori, renomada loja de instrumentos musicais localizada no centro de Curitiba. Seus clientes mais assíduos nesse comércio de zebras são os grupos de Santos, Bahia e Rio. Pelo menos duas pessoas ouviram seu nome ser pronunciado por Fernando Osaná - o organizador do esquema baiano -, quando há dois anos precisou comprar um resultado no Paraná, durante uma reunião na Loteria Zé Carioca, eem Salvador.
A especialidade de Leon Barg nos últimos anos passou a ser justamente esse comércio de zebras, na verdade um subproduto da "Máfia da Loteria", geralmente praticado apenas por intermediários que, contratados por determinado grupo para fabricar resultados inesperados, acabam ganhando um dinheiro extra ao vendê-los para terceiros. E é esse ativo comércio paralelo que provoca o número surpreendentemente grande de ganhadores em testes reconhecidamente difíceis.
Às vezes, porém, os intermediários são fiéis, mas os donos das lojas lotéricas onde os cartões são perfurados traem a confiança dos "zebrões" e vendem para outros clientes a aposta já pronta. Para evitar esse tipo de carona por tudo indesejada, os grupos procuram jogar apenas em revendedores intimamente ligados a eles e na madrugada de sexta-feira - embora a Caixa Econômica determine que as apostas sejam encerradas nas quintas-feiras, às 22 horas. O grupo de Manaus joga na loja Riab Makarem, de Rodolpho Makarem; o da Bahia, na Zé Carioca; o do Paraná, na Pé Quente; o do Rio, na Braspânia, de Antônio Real; o de Santos, na Dois Cruzeiros, de Marcos Batata; o de Belém, na loja Mangueirão, de Pedro Hamílton Nery; e o grupo do Rio Grande do Sul jogava na loja de Carlos Duarte.
Alguns desses revendedores fazem parte ativa do esquema, como Makarem, em Manaus, Carlos Duarte, em Porto Alegre, e Pedro Hamílton, em Belém. Os outros sabem exatamente o que ocorre nas madrugadas de sexta-feira em suas lojas: os grupos reúnem-se ali para 'fechar" os jogos e utilizam prodigamente seus telefones para contatos interestaduais. Evidentemente, nada escutam, nada vêem, nada falam, pois têm medo de perder uma gorda fatia de seus lucros semanais. "O Marcos está neste caso", sustenta um amigo dele de Santos. Pode ser.
O certo é que Marcos Batata mantém contatos constantes com Bahia, Paraná e Rio. Além disso, vangloria-se de receber ligações telefônicas de importantes políticos de Brasília, que fazem seus jogos, via DDD, na Dois Cruzeiros - uma loja aparentemente comum, localizada na avenida Ana Costa, em Santos, um ponto de movimento apenas regular, mas que surpreendentemente tem fama nacional.
Se fazer bolões em revendedores de confiança é um requisito básico de segurança para todos os grupos, há embutido o inconveniente de que bisbilhoteiros acabem com a atenção despertada pela estonteante freqüência com que acertam os 13 pontos. Para evitar isso, os "zebrões" procuram dispersar suas centenas de cartões por várias lojas, indo jogar em outras cidades ou até mesmo outros Estados. Sabe-se, por exemplo, que o grupo de Santos conseguiu fechar 22 cartões no teste 565, que pagou um prêmio de Cr$ 4 719 827,00 por aposta premiada. No entanto, quem tentar seguir a pista desses cartões se perderá, por certo, pelas cidades da Baixada Santista, do ABC e do interior paulista.
O item segurança é levado tão a sério que geralmente os cartões estão em nome de testas-de-ferro. A informação sobre os 22 cartões do grupo de Santos só vazou porque flagraram Marcos cravando a coluna 2, seca, no jogo ABC x Ferroviário - a grande zebra do teste. Quem viu, estranhou. E, estranhando, manteve-se atento.
Foi, com efeito, uma falha imperdoável, de amador. Os profissionais jamais cravam seca a coluna da zebra, justamente para evitar curiosidade.
Apesar da bobeada de Marcos, o chamado grupo de Santos tem sido um dos mais bem-sucedidos e discretos. É basicamente formado por quatro pessoas. Marcos Pereira Martins, o Marcos Batata, ex-ponta-direita do Corinthians, Boca Juniors e Seleção Brasileira; Manoel dos Santos Sá, proprietário das lojas Tintas MC, em São Paulo, e com vários negócios em Santos; Carlos Alberto Fernandes, o Fubá, dono de uma firma de despachos aduaneiros e diretor de futebol do Santos F.C.; e Raul Ragebi, que possui uma rede de lojas em São Paulo. Reúnem-se às quintas-feiras na loja do Marcos ou então no Guarujá, onde possuem casas de praia. São fortemente ligados ao grupo do Paraná, principalmente a Luís Afonso Camargo e a Oberdã Vilain, antigo zagueiro do Santos, Coritiba e Grêmio, e acusado por várias testemunhas ouvidas por PLACAR de ser o mais discreto e eficiente intermediário de zebras no Sul do País.
O grupo tem também ligações umbelicais com Alfredo Saad e Salomão Saadi (não têm parentesco entre si), que são os mais importantes organizadores e financiadores do esquema carioca, segundo denúncias ouvidas em Salvador, Rio e Santos. Na Bahia, o contato do grupo é o ex-jogador Douglas, que começou nos juvenis dos Santos e hoje é fazendeiro de cacau.
No início, o grupo jogava apenas na loja do Marcos. Mas, como passaram a ser alvo de curiosidade devido à freqüência com que ganhavam, começaram a jogar em outros revendedores da cidade, municípios vizinhos e da capital, como a loteria Danúbio Azul, de Paulo Cheung Chi Wan, o Paulo Chuzês, ex-preparador físico dos juvenis do Santos e dos profissionais do Jabaquara.
Foi ele um dos aliciadores frustrados junto aos jogadores da Portuguesa Santista no teste 558, em agosto do ano passado. Nem o seu nome, nem o do comerciante Ernesto Torre, ex-jogador de basquete do Santos, apareceram nos jornais. Um único aliciador perdeu a proteção do anonimato: Válter Ferraz de Negreiros, o Negreiros, ex-jogador do Santos e Coritiba. Mas os três foram vistos nos treinos da Portuguesa e a bordo do carro que transportou os "zebrões" por toda a cidade.
Negreiros faz ponto e joga na loja de Marcos, já tendo chegado aos 13 pontos algumas vezes. Sua fama de ''zebrão" vem desde o tempo em que jogava no Coritiba, formando num time famoso por resultados ainda hoje inacreditáveis. E amigo de Oberdã, Dreyer e Luís Afonso Camargo. Quando seu nome surgiu nos noticiários como sendo um dos aliciadores, apressou-se em pedir desculpas ao técnico Olavo, da Portuguesa, seu companheiro de time nos veteranos do Santos. "Não ganhei nada para isso. Quis apenas fazer um favor para um amigo". Justificou-se.
Mas por que tentar subornar a Portuguesa Santista numa partida contra o Rádium, de Mococa, pela 2a. Divisão de São Paulo? E fácil explicar. A chamada "Máfia da Loteria" joga uma quantidade tão grande de cartões combinados que consegue ter nas mãos vários jogos com dez triplos, quando o máximo permitido são seis. Assim. conseguindo comprar as três partidas restantes, chamados de jogos secos, garantem matematicamente os 13 pontos. A partida entre Rádium e Portuguesa, em Mococa, seria um dos secos do teste. E tudo indica que o ''amigo'' a quem Negreiros pretendia ajudar tenha viajado do Paraná. Ao prestar um favor desinteressado a ele, estaria, por tabela, favorecendo também aos grupos de Santos e do Rio, já que essas três ''famílias'' trabalham constantemente juntas.
Essa união parece ficar clara nos fatos que ocorreram às vésperas da partida que o América perdeu para o Serrano por 3 x 1, no dia 18 de outubro de 1980, pelo Campeonato Carioca. Na manhã daquele sábado, Manoel dos Santos Sá e Carlos Alberto Fernandes deslocaram-se para o Rio a fim de verem o jogo, que não tinha qualquer atrativo capaz de fazer com que pessoas viajassem 500 km apenas para assistí-lo. Antes de irem ao estádio São Januário, local da partida, os dois passaram pela casa de Alfredo Saad. Segundo depoimento de Flávio Moreira, a derrota do América havia sido comprada por José Calazans, atualmente diretor remunerado do Goiás e homem de confiança de Aziz Domingues, e por Samarone, ex-jogador da Portuguesa Santista e Fluminense, hoje engenheiro do DNER no Paraná. "Fui eu quem os levou até a loja de Caio, irmão de Luisinho, centroavante do América", informa Flávio Moreira. Uma parte do pagamento foi feita no dia seguinte, o restante ficou para ser dado após o jogo. Apesar da "inesperada" derrota do América, nada menos do que 41 cariocas fizeram 13 pontos, contra 45 ganhadores em São Paulo.
Normalmente a proporção é de três premiados em São Paulo para um no Rio. Tudo leva a crer que o grupo de Santos jogou no Rio, onde existem, no mínimo, dois grupos.
O primeiro, e mais importante, teria como organizadores e financiadores Salomão Saadi e Alfredo Saad. Salomão - um festejado colunâvel da sociedade carioca - é presidente do Clube Monte Líbano. Alfredo, também famoso e amigo de Pelé, foi quem vendeu Rivelino ao futebol árabe. Tem Rolls Royce que eventualmente aluga para emissoras de televisão. Sabe-se que por muito tempo evitou ir à Bahia, onde prometiam matá-lo por causa de um não muito claro problema de jogo. É muito amigo de José Dias, dono da Sport Press.
Este grupo tem como contatos os ex-árbitros Aírton Vieira de Moraes, o Sansão, e José Aldo Pereira (aquele que levou um soco do tricampeáo mundial Brito, num Botafogo x Vasco de 1971). O primeiro esteve envolvido numa acusação de suborno na Copa do Mundo do México. Em outubro de 1979, voltou às páginas dos jornais devido ao caso de suborno de Júlio César Cosenza, numa partida entre o Dom Bosco e o Goiás, em Cuiabá. O grupo atingiu um ponto tão alto de sofisticação que, quando os testes têm jogos internacionais programados, são acionados seus contatos no exterior. Na Itália, o intermediário do grupo seria o bicampeão mundial Amarildo.
O nome de Salomão Saadi é ouvido em Santos e na Bahia sempre que se necessita de um jogo garantido no Rio para elaboração das apostas. Tudo indica que fizesse parte da lista de 29 nomes entregues à Polícia Federal por João Macedo, primo de Charles Borer e uma das testemunhas de acusação do radialista Flávio Moreira.
O outro grupo do Rio é formado por Edmundo dos Santos Cigarro, homem ligado ao Olaria; Aniz Abrão Davi, o Anísio, presidente da escola de samba Beija-Flor de Nilópolis, bicheiro e acusado das mortes de Luís Carlos Jatobá e Misaque José Marques; Nery José Proença, ex-árbitro, envolvido em vários escândalos de suborno; os comerciantes Manoel Rodrigues Mansur e Mário Reis; e o técnico Daniel Pinto, do São Cristóvão, que em 1975 chegou a ser eliminado do futebol por envolvimento confesso num acordo entre Vasco e Olaria - escândalo na época chamado pela imprensa de "Baririgate".
Em pelo menos duas oportunidades, membros desse grupo chegaram a trabalhar com Flávio Moreira. A primeira foi no teste 429, de fevereiro de 1979. Dez dias antes da realização do teste, ele foi procurado por Edmundo Cigarro, que lhe pediu dois jogos para um esquema em preparação com Anísio. Flávio recebeu então Cr$300 mil para garantir a derrota do ABC para o Alecrim e do Goiás para o Vila Nova. Alberto Damasceno ficou encarregado do jogo de Natal e José Calazans aceitou fazer a derrota do Goiás. "Ele subornou o zagueiro Macalé e o meio-campista Alexandre Bueno", afirma Flávio.
O radialista foi novamente procurado por Edmundo Cigarro três meses mais tarde, em maio. O presidente do Olaria disse-lhe que estava precisando de um jogo. "Um eu já tenho garantido", revelou o dirigente. "O Olaria vai perder para o Botafogo." De fato, o seu clube perdeu por 2 x 1. E, por coincidência, o goleiro era Hílton José Moura, o Mug, que um mês antes fora preso em Volta Redonda por tentar subornar os jogadores do Volta Redonda F.C. para que perdessem do São Cristóvão em casa. Junto com Mug, Manoel Rodrigues Mansur e Mário Reis foram parar na delegacia.
Acertado o preço pelo jogo pedido por Cigarro, Flávio Moreira telefonou para Pedro Hamilton Nery, em Belém, a fim de garantir a derrota do Remo para o Paysandu. "O Pedro Hamílton me disse que não tinha problema", lembra Flávio. "Faria o acerto com o zagueiro Dutra, que já jogou no Vasco."
Nessa época, o radialista já estava trabalhando para o grupo de Manaus, que é formado por Rodolpho Makarem, dono da loja onde os jogos são feitos; pelo engenheiro eletrônico Fernando Franco de Sá Bonfim, proprietário da Igasa - lndústrias Gerais da Amazônia S/A; pelo construtor Ézio Ferreira, ex-presidente do Fast Clube e do Rio Negro; e pelo comerciante Antônio Pi.
Em 1979, embora funcionasse com eficiência, o grupo de Manaus não possuía ainda a sofisticação de hoje. Sua rede de intermediários estende-se agora por Portugal, Itália, Argentina e Uruguai. Naquela época, não. Mesmo assim, um ano antes, no teste 376, Fernando Bonfim ganhou Cr$ 16 669 478,70 na época, o maior prêmio já pago pela Loteria Esportiva. Com isso, transformou-se em notícia nacional. Nas entrevistas que deu, deixou sempre claro que não freqüentava estádios, pois tinha hobbies mais interessantes na vida. Um deles, por certo, ganhar na Loteria.
O primeiro contato de Flávio Moreira com o grupo foi em março de 1979, no teste 436. José Calazans passou pelo Rio e lhe pediu para indicar um contato de confiança no Ceará para "fazer" o jogo Ceará e Fortaleza. Moreira sugeriu o nome de Alberto Damasceno e, em troca, Calazans deu-lhe dois jogos fechados: Rio Branco x Coritiba. e Colorado x Maringá, vitória do Colorado.
Flávio vendeu a informação para Ézio Ferreira, que a passou para Fernando Bonfim. Um dia depois da realização do teste, Flávio receberia Cr$ 200 mil através da filial da Igasa, em São Paulo. Na semana seguinte, o radialista iria a convite até Manaus, conhecendo. além de Ézio e Bonfim, Carlos Duarte, um gaúcho que trabalhava na Igasa. Hoje, Carlos Duarte está morando em São Paulo. Em Porto Alegre montou - e vendeu - uma moderníssima casa lotérica e formou seu próprio grupo, que tem como um dos membros mais atuantes o ex-piloto Getúlio Maurício Oliveira, de uma tradicional família de Pelotas.
A partir daí, Flávio Moreira, Alberto Damasceno e o empresário Janos Tatrai passaram a ser os mais importantes e ativos intermediários do grupo. Juntos fizeram o teste 450, de 7 e 8/7/79.
Tudo começou quando Flávio foi procurado no Rio por Carlos Duarte. O trabalho pedido ao radialista seria o de garantir mais dois jogos, tendo em vista que o grupo já estava de posse do terceiro - o clássico amazonense Nacional x Rio Negro. "A única colaboração que o Duarte me pediu para esse jogo foi o telefone do árbitro paulista Oscar Scolfaro. que iria apitar a partida". conta Flávio.
Como encarregado de arranjar os outros dois jogos secos, o radialista acionou Janos Tatrai para que ele trabalhasse a vitória do Campinense contra o Botafogo, em Campina Grande, Paraíba, onde o empresário húngaro naturalizado brasileiro reside. "Na segunda-feira após a partida, mandei uma ordem de pagamento de Cr$ 100 mil para ele". lembra Flávio.
O terceiro jogo feito pelo grupo foi a zebra Serrano 1 x O Botafogo. O próprio Flávio encarregou-se de entregar Cr$ 100 mil ao lateral-direito China e ao quarto-zagueiro René. Foi ainda o radialista quem armou a outra zebra do teste - a derrota do Atlético Mineiro para o Uberaba. "O Duarte deu Cr$ 80 mil a um cara - cujo nome me esqueci - que era amigo do velho Canor Simões Coelho. representante dos clubes mineiros no Rio", diz ele. "Canor jamais soube disso."
Um outro teste trabalhado pelo grupo de Manaus foi o 464, de 12 e 13 de outubro de 1979. Por intermédio de Manuel Francisco do Nascimento, o Manu, superintendente da Federação Baiana de FuteboI, eles garantiram as derrotas do Bahia para o Nacional (0 x 1), em Manaus, e do Vitória para o Cruzeiro (2 x 4), em Salvador. O dirigente baiano ficou ainda encarregado de aliciar o juíz Nei Andrade Nunes Maia, que apitou a partida Grêmio 1 x 3 América-RJ, em Porto Alegre.
Foi Manu quem colocou Flávio Moreira em contato com o esquema da Bahia, cujo organizador é o médico legista Fernando Osaná, até pouco tempo funcionário do Instituto Médico Legal de Salvador. É ele quem combina os cartões dos apostadores na Zé Carioca e transa zebras. Tem acesso a Aziz Domingues e a Leon Barg, no Paraná, e a Salomão Saadi, no Rio. Seu colaborador mais próximo é Paulo Guimarães, um ex-funcionário da Federação Baiana de Futebol. Pelo menos dois ex-presidentes do Vitória fizeram parte do grupo: Rui Rosal e Antônio Visco. Rosal, segundo informações colhidas em Salvador, fazia seus jogos em nome de Divalmiro Sales, superintendente do clube, para despistar. Num dos testes que ganhou, no início deste ano, acertou a derrota do Vitória, seu próprio clube, para a modesta Desportiva do Espírito Santo, em plena Fonte Nova. Visco era um simples corretor de imóveis quando assumiu a presidência do clube. Hoje, possui fazendas de gado e cacau e mora num lu-xuosíssimo apartamento de cobertura.
Como financiadores - pessoas que entram com o dinheiro para a fabricação de zebras - o grupo conta com Herman Ferreira Lopes (uma testemunha o definiu como médico, zebrão, capoeirista, boêmio e tocador de atabaque"), e dois comerciantes de autopeças conhecidos por Luís e Urbano.
Há quem diga que por trás dos cartões premiados de Antônio Visco e Divalmiro Sales estaria Benedito Dourado da Luz, diretor financeiro de uma grande construtora nacional. Foi ele quem, em 1980, como diretor de futebol do Vitória, gastou cerca de Cr$ 30 milhões para que o seu clube voltasse a ser campeão baiano, coisa que não acontecia há sete anos.
Testemunhas atestam que uma auditoria recente no clube chegou bem próximo a essa cifra. Mais: encontrou-se nomes dos beneficiados pela prodigalidade de Benedito Dourado da Luz e Antônio Visco, que subornaram juízes e jogadores adversários para o Vitória poder assim chegar ao título - e provocaram, ao menos indiretamente, zebras estonteantes na Bahia naquele ano.
Do esquema baiano fazem parte ainda os ex-jogadores Douglas e Sapatão, como intermediários. Sapatão, em julho do ano passado, por pouco não foi preso no Ceará por tentativa de suborno junto aos jogadores do Fortaleza para que perdessem a partida contra o Guarany de Sobral, no jogo 7 do teste 557. Os jornais na época ligaram Sapatão a "um grupo com escritórios em São Bernardo do Campo ou São Paulo". Na verdade, ele estava em Fortaleza a pedido de Fernando Osaná - um homem com um círculo de amizades muito grande entre os jogadores de todo o Brasil, embora jamais tenha estado ligado oficialmente ao esporte.
Flávio Moreira assegura que Osaná foi um dos poucos que conseguiu subornar o meio-campista Carlos Alberto Pintinho, que hoje atua no Sevilla, da Espanha. Rubens Galaxe e Tadeu, companheiros de Pintinho em seus tempos de Fluminense, seriam também jogadores aos quais o médico legista baiano teria acesso tranqüilo para a manipulação de resultados. Há informações de que a recente derrota do Fluminense para a Portuguesa carioca foi provocada por ele, da mesma maneira como havia conseguido zebrar a partida Campo Grande 2 x O Fluminense, no dia 23 de agosto de 1981. "Ele esteve hospedado no Apa Hotel, no Rio", historia Flávio Moreira, "e me garantiu que havia feito trabalho em cima de Galaxe e Tadeu para o Fluminense perder."
Osaná tem ainda um contato importante no Espírito Santo: o empresário de futebol Lélio Borges, que morou em Salvador por todo o ano de 1980. Ele pertence ao grupo capixaba, que tem como envolvidos Ebes Lima Guimarães, ex-presidente da Federação do Espírito Santo, e Dário Cruz, ex-diretor de árbitros da entidade. Foi ele quem comprou o goleiro Salvino, no teste 491, de 20 de abril de 1980, para que o Ferroviário do Ceará perdesse para a Desportiva do Espírito Santo. Salvino hoje joga no Fortaleza.
Flávio Moreira trabalhou ainda para grupos menores, como o de Belém, constituído por Pedro Hamílton Nery, proprietário da loja Mangueirão, e pelo pai do atacante Bebeto, um contrabandista chamado Umbelino. Nery, na maioria das vezes, vende o jogo de Umbelino para Rômulo Maiorana, proprietário de um jornal de Belém. "Ele não arma, não se envolve, apenas pega carona no jogo", explica Flávio. "Por isso é que o pessoal de Manaus é desconfiado e só fecha as apostas sexta-feira pela manhã."
Em Pernambuco, ele fez algumas zebras para Clélio Falcão, que é ligado ao Sport Recife. Uma vez ele deixou de pagar Cr$ 600 mil a Fernando Osaná, que subornara o lateral Romero, do Náutico, a seu pedido.
A conversa fora gravada, mas nem mesmo ao ouvir uma cópia Clélio Falcão se dispôs a pagar. Como Flávio Moreira gosta de dizer, "mutreta não tem prova". Mesmo quando ela existe, como no caso da fita gravada por Osaná, não serve para nada, já que acusar é como assinar a própria confissão. Flávio Moreira acusou e assinou sua confissão, pois deixou de fazer parte do esquema no momento em que Charles Borer o acusou em outubro do ano passado de pertencer a "Máfia da Loteria".
Ela agora tem nomes, rostos e endereços. Não há mais razão, portanto, para que deixe de ser punida.
Por SÉRGIO MARTINS
Uma seleção de envolvidos: Mazaropi, Jairo, Orlando, Marco Antônio, Toinho, Joãozinho, Daltro Menezes...
Depois de viver quase sete anos intimamente ligado à "Máfia da Loteria'', o radialista Flávio Moreira prestou um longo depoimento a PLACAR. Foram quase nove horas de gravação, durante as quais ele apontou todos os nomes de jogadores, árbitros e técnicos que soube um dia estarem envolvidos com os "zebrões". Aqui, a lista completa das pessoas citadas por ele:
Joel Mendes - "É um goleiro que se vende. E só encostar".
Jairo - "Sim, se vende. Dizem que saiu do Corinthians porque o Vicente Matheus descobriu que se vendia".
Bolão (Luís Carlos de Oliveira) - "O pessoal do esquema me pedia sempre para que eu incluísse jogos dos juvenis do Matsubara nos testes de início de ano. Do Matsubara e do Atlético Mineiro. O Bolão, técnico do time paranaense, já trazia tudo armado".
Daltro Menezes - "Vou dizer sem medo: é um dos maiores gaveteiros do futebol brasileiro. Gosta de trabalhar com jogadores que se vendem, como o goleiro Vandeir".
Toinho - "Ele foi jogador do Tatrai. Inclusive ele foi trazido para o São Paulo pelo húngaro. Dizem que o Tatrai chega nele".
Tobias - "Esse é garantido. O Castor de Andrade (presidente do Bangu) descobriu que ele se vendeu num jogo contra o Vasco no ano passado".
Joãozinho - "Esse Joãozinho, do Santos, é o mesmo que jogou no Vitória? Se for, é de jogada".
Marco Antônio Feliciano - "Em um teste no ano passado, o 532, o Bangu foi jogar em Salvador contra o Vitória. O Fernando Osaná me garantiu que acertara tudo com Marco Antônio, Tobias e o lateral Júlio. O Vitória ganhou de 2 x O. Castor de Andrade sabe que ele é jogador que se vende"
Orlando Lelé, ex-Vasco, Coritiba, Udinese e Seleção Brasileira - "É de jogada".
Renê - "Fiz um teste com ele e com o lateral China. O Botafogo perdeu para o Serrano naquele dia por 1 x O".
Gaúcho Lima - "Quando meu caso estourou, telefonei para ele e disse que se eu fosse para o buraco levaria todo mundo comigo. Ele respondeu que ficasse tranqüilo. A partir daí, o Botafogo perdeu três partidas seguidas. Para o Americano, Campo Grande e para o Flamengo, de 6 x O".
Mílton Buzetto - "Uma vez o presidente do Goiás, Judet Sebah - ou o Carlos Chaer - ligou para mim na Sport Press pedindo para que não colocasse mais o seu clube na Loteria. Perguntei por que e ele me disse que havia gente vendendo seus jogos. Liguei para o Tatrai, que falou com o Juca Paz, em São Paulo, e descobri que quem vendia os jogos do Goiás eram o técnico Mílton Buzetto e o Alexandre Bueno".
Duílio - "No time atual do América do Rio só tem ele e o Luisinho Tombo de mutreteiros. Quem faz é o pessoal do Paraná".
Osires - "Do Cruzeiro, jogou no Fortaleza. É de transação".
Zé Maurício - "Goleiro que foi do América Mineiro. Tatrai já chegou nele".
Maurílio José Santiago -"Tatrai faz com ele".
Paulo Maurício - jogou no América do Rio. Quando o pessoal do Vitória da Bahia me pediu ajuda para ser campeão, eu respondi que não adiantava nada montar esquema se no time havia jogador que se vendia. O diretor Benedito Dourado da Luz escutou no telefone o que Tatrai disse do moço".
Zê Augusto - "Ele só aceita ser comprado pelo Sapatão. Se qualquer um outro chegar, diz que não faz mutreta. O Washington Luís é igual".
Valquir Pimentel - "Sei que foi feito um jogo com ele, mas não era Loteria. Foi CSA x Ferroviária-SP, pela Taça de Prata. Recebeu Cr$ 150 mil e expulsou o zagueiro Samuel, da Ferroviária''.
César, emprestado pelo Corinthians ao Juventus - "Quando era goleiro do CRB, na decisão do Campeonato Alagoano de 1980, foi comprado pelo presidente do CSA, João Lyra, por intermédio do Tatrai".
Paúra, ex-Madureira e Rio Branco, de Vitória - "É de transação. Quem recebe o dinheiro é a mulher. Cuidado, ela é advogada".
Luisão - "E aquele que está no Bangu e andou pelo Santos. É do esquema".
Biluca, ex-Coritiba e Operário-MT - "Muito ligado ao Todé, empresário que esteve envolvido naquele escândalo do juiz Dulcídio Vanderlei Boschilla. É mutreteiro''.
Tadeu Macrini - "Ixe! Chega".
Carlos Valente - É árbitro capixaba. Aceita acordo".
Clinamulte Vieira França - "Qualquer um da Bahia chega nele".
Edson Cimento - "O Pedro Hamílton fazia com ele, na época em que jogava na Tuna, em Belém".
Reginaldo - "É um goleiro do Clube do Remo que saiu do Santa Cruz por causa de mutreta".
Celso - "Jogou no Fortaleza, no Botafogo de Ribeirão Preto e agora está no Vasco. É de jogada".
Jorge Luís Cocota - "O Ceará uma vez empatou em 0 x 0 com o Quixadá. Ele bateu duas vezes um pênalti e não marcou. Havia sido comprado pelo Fernando Osaná".
Eraldo - "Até agora não sei como o Fluminense o comprou do América. Todo mundo sabe que gosta de grana. Num jogo contra o América de Minas, no Maracanã, ele havia sido comprado pelo Calazans".
Gélson - "Acabou proibido de entrar no Vitória depois de franguear contra o Bahia, num jogo armado pelo Alberto Damasceno".
Zezinho Figueiroa -'"Foi com ele que armei aquele Botafogo 3 x 1 Vasco e que acabou sendo o pivô do escândalo envolvendo o meu nome, pois o Borer não quis pagar".
Luís Antônio - "Foi goleiro do Bahia. No teste 368. fizemos acordo com ele".
Juci - "E um beque lourão que jogou no Itumbiara e Anapolina. Fizemos com ele também no teste 368".
Celso Augusto - "Lateral-direito que jogou no Vasco e no América-MG. Teria sido o contato de Edmundo Cigarro no jogo América-MG 0 x 5 Cruzeiro, no teste 429".
Tião - "O Castor comprou-o da Ferroviária para substituir o Tobias. Só que ele também é de jogada".
Dico - "O Pedro Hamílton subornou esse goleiro e o Dutra para que o Remo perdesse do Botafogo, no teste 483''.
Ademir - "Jogava no Itabuna em 1980. Eu e o Tatrai lhe demos Cr$ 100 mil para ser expulso ou fazer um gol contra no jogo contra o Vitória, teste 515. Foi expulso".
Luís Antônio - "Esse é outro, goleiro do Cruzeiro. Calazans fez com ele e com o Zezinho Figueiroa o empate do Cruzeiro com o Sampaio Correia, no Mineirão".
Marcelo - "No teste 532, o Flamengo era um dos secos do Fernando Osaná. Para não haver surpresa em Aracajú, comprou esse goleiro do Itabaiana".
Luís Carlos Félix -"Nas eliminatórias da Copa do Mundo deste ano, recebi Cr$ 100 mil para colocá-lo em contato com o Vitorino Vieira, um ex-radialista carioca, que queria armar com ele a classificação da Seleção Peruana".
Mazaropi - "É de transa. Quem faz com ele é o José Calazans, que me disse uma vez que é um jogador muito caro. Fizeram com ele o jogo Vasco O x 1 Bahia, no Maracanã, em 1976".
CONQUISTA DA COPA ANISTIOU 38 CONDENADOS
Poolo Rossi tinha 23 anos quando cometeu a grande bobagem de sua vida. Maior jogador italiano já àquela época, defendia o Perugia, modesta equipe da divisão A. Convidado por um colega de time a ''colaborar na fabricação de um resultado'' , Rossi aceitou, com uma condição: teria de marcar dois gols. o que consolidaria sua liderança como artilheiro do campeonato de 1979.
O bookmaker Álvaro Trinca, ao ser informado pelo zagueiro Della Martira da exigência, concordou sem problemas. Apenas tratou de avisar os jogadores Stefano e Claudio Pellegrini, Salvatore Di Somma e Cattaneo, todos do Avellino, para que o time também fizesse dois gols. Dessa maneira, daria empate.
Numa véspera de Ano Novo, 30 de dezembro de 1979, Avellino e Perugia empataram em 2 x 2. Além de artiIheiro da partida, Paolo Rossi embolsou um cheque de dois milhões de liras. valor que atualizado ao câmbio de hoje representaria cerca de 285 mil cruzeiros. Seu cúmplice Della Martira ficou com 1,1 milhão de cruzeiros - e essa desproporção na partilha do suborno dá bem a medida da bobagem cometida por Paolo Rossi, que aliás faturava o suficiente com o futebol para não precisar se vender por tão pouco.
O empate entre Avellino e Perugia, mais um famoso Milan 2 x 1 Lazio (6/1/1980) - afora outras duas dezenas de resultados comprovadamente manipulados por bookmakers, através do suborno de jogadores e dirigentes -, constituíram o chamado ''Escândalo do Totonero''. Funcionando à sombra da loteria esportiva convencional, o totonero recolhia apostas entre sextas e domingos. O dinheiro, é claro, ficava nas mãos dos banqueiros; cada apostador podia cravar um ou vários jogos do teste previsto; os prêmios eram pagos na segunda-feira seguinte. Com uma rede de agentes calculada em três mil pessoas, o totonero movimentava, dois anos atrás, em torno de 270 milhões de cruzeiros semanais - dez por cento dessa quantia representava o lucro dos banqueiros.
A inconfidência de Álvaro Trinca, um bookmaker que se indignou por não ver respeitados alguns acertos com jogadores, fez estourar o escândalo. Rossi era apenas o mais famoso dos 38 personagens envolvidos - entre os quais os também craques de seleção Enrico AIbertosi, Bruno Giordano e Giuseppe Savoldi. Alguns foram detidos durante o processo e todos foram condenados a penas que variaram de um ano de suspensão à eliminação pura e simples do futebol profissional.
Coube a Paolo Rossi. entretanto, reabilitar a honra dos jogadores - Após cumprir 23 meses de suspensão, voltou a jogar em fins de abril passado, chegando a participar das partidas finais do Campeonato Italiano, pela Juventus, que o contratara ao Perugia em julho de 1981. Convocado para disputar a Copa, seus gols foram decisivos para a conquista do tricampeonato mundial - e para o decreto de anistia que foi assinado semanas depois.
O escândalo do totonero foi esquecido. Agora, todos têm chance de acertar outra vez.
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